terça-feira, 10 de julho de 2007

Salve o síndico da música brasileira


Sebastião Rodrigues Maia, mais conhecido como Tim Maia, um dos artistas mais importantes da história da música brasileira, ou melhor, da Música Preta Brasileira (como diria o grande jornalista e agitador cultural Israel do Vale). Não, ele não está lançando nenhuma grande raridade, nenhum disco de inéditas chega às lojas. Apenas um CD e DVD, Tim Maia In Concert, que registra uma apresentação de 1989 no Hotel Nacional do Rio de Janeiro.
Após 18 anos, esse registro histórico chega e, pode até não acrescentar nada na discografia cheia de grandes obras desse sindico da MPretaB, mas mostra um cantor e compositor em uma fase interessante, ao lado de sua banda Vitória Régia, comandada por Tinho no saxofone e Paulo Braga na bateria, além de uma grande orquestra sob a regência do maestro Ivanovich e arranjos de Lincol Olivetti, contando ainda com a participação de Jaques Morelenbaum e Giancarlo Parreschi.
Tim Maia era um gênio que conseguia, mesmo em uma fase considerada um tanto quanto brega como era essa do final dos anos 1980, manter seu encanto. Era um “brega de altíssima qualidade”. Ao morrer em 15 de março de 1998, Sebastião deixava um registro para a história que poucos conseguiram. Ele tinha atitude, atributo que 11 em cada 10 roqueiros do mundo tentam alcançar e não conseguem.
Existe até uma célebre história de que quando Tim chegava aos bares da moda no Rio, os gênios da música sentados comentavam “lá vem o Tião maconheiro”. Na verdade ele pouco se importava com o que as “cabeças pensantes” estavam dizendo. Pode existir e existem artistas melhores que ele, mas iguais jamais. E olha que ele vinha de uma família de 19 irmãos. Circulou pela bossa nova; passeou pela Jovem Guarda; em 1957, fundou no bairro carioca da Tijuca o grupo de rock Os Sputniks, do qual participaram Roberto e Erasmo Carlos. Não se fixou em nenhum destes gêneros e acabou se tornando o papa da soul/funk/black music brasileira.
Todo mundo gosta de ouvir a fase “Racional” de Tim e ficar babando se achando o descolado. Tudo bem, é uma fase de uma criatividade enorme, mas para o playboyzinho sempre mal informado, vale a dica: alguns discos dele tiveram mais influência e são mais valiosos que os dois da fase “roupa branca” do cantor. Não é à toa que, depois de um tempo, Tim chegou a abominar essa fase, por não acreditar mais no que havia dito. E ele, como um intérprete exigente, fazia questão de cantar aquilo de que gostava. Aliás, se ele conhecesse o publico que hoje adora essa sua fase racional, aí sim é que ele a renegaria mais ainda.
Voltando ao lançamento, os melhores momentos do show são os que não ficam claros no CD e DVD: os intervalos entre uma faixa e outra. O melhor de Tim, para além de sua música, sempre foi a sua briga com o “retorno” e a “luz”, sempre fazendo questão de homenagear a mãe do iluminador, como ele fazia questão de falar: “um abraço à mãe do nosso querido homem da luz, que está estragando tudo”. Esse era o sempre bem humorado Tim, que sabia até como xingar os problemas. Um verdadeiro “tarja preta” da música brasileira.
O disco, como já foi comentado, não acrescenta muito à discografia do Sebastião, e a gravadora também poderia nos poupar de algumas coisas como uma série de comentários no encarte. Tudo bem que tem um do Erasmo Carlos, da Sandra de Sá e do Nelson Motta – que está preparando uma biografia do cantor, mas alguém poderia explicar o que nomes como Léo Jaime e o Rogério Flausino estão fazendo por lá? No mínimo é um meio de divulgar artistas à custa de uma suposta influência. Convenhamos, no caso do “J Questionário”: não é porque coloca uma batidinha black e paga para uns nomes importantes da música negra aparecerem em seus discos que o groove está no sangue da banda. Falta muita, mas muita melanina.
Críticas à parte, o certo é que temos um novo disco e DVD do “Tião Maconheiro” na área e só isso já vale, Tim Maia é sempre bom de ouvir. Caso não queira gastar dinheiro adquirindo esse produto, existem os métodos ilegais (ou legal para alguns) para se conseguir essa obra. Salve Sebastião Maia, salve a música preta brasileira!

Grooverizando no condomínio, totalmente irracional

2 comentários:

Ronaldo Faria disse...

Convivi na PUC do Rio com um batera do Tim, gordo que nem ele, mulato, carioca que nem eu, amante da música como eu. Fazia Direito e era informante do SNI (cada um, no fim dos Anos 70 com seu cada qual, sem cobranças, afinal o Lula um dia foi nosso paradigma de esquerda revolucionária). Eu de um lado, ele do outro. Mas, respeito mútuo. E bebíamos juntos na Barra, eu ia às noites de chorinho do pai dele. Tomávamos porres junto. Eu tentava convencê-lo de que o socialismo era o caminho para o mundo. Ele dizia apenas: "Ronaldo, se fechar de novo e você cair, eu te prometo que não deixarei ninguém te torturar". E vivíamos assim: um no discurso e o outro na realidade. A abertura se fez e ele deixou a PUC, Deus sabe pra onde. Talvez tenha morrido, como o Tim. Mas sobrevive em mim, que nem o Tim, ídolo meu, que eu já gravei em DVD pra ti e gravei de um DVD teu. Tim é tijucano como eu, louco como eu gostaria de ser. O síndico da MPB (viva Benjor!). Como o seu ex-baterista era um síndico também. E um amigão. Cada um com seu cada qual... Chamem o Tim, Chamem o Jorge. Chamem o Serjão. O mundo ainda precisa de gente assim.. Cuide-se. Beijo do amigo e irmão.
Ronaldo Faria
Ps.: Presenteei o Willian Break com um CD do Doc Miranda hoje. O negão ficou um sorriso só. E disse que era música da África, que ele adorava. Se puder, um dia vou ajudá-lo a ser só DJ. O mundo precisa de gente assim...

[de lima] disse...

boa sérgi. informações e suas particularidades, poucos conhecidas.

espaço maneiro esse, bem sua a energia aqui. bacana. é nóis.

aquele [abraço]